quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Sombra

É que eu também tenho meus dias de sombra, sabe? Em que a necessidade de um abraço pode se transformar nas piores frases, ditas nos piores momentos. E eu posso nem me importar se você fala sempre a verdade. Nesses dias, você vai desejar não ter deixado aquela brincadeira subentender perigo. Vai entender que é importante não omitir, mesmo sem querer e vai aprender que a minha capacidade criativa pode ir além do que se pode imaginar ou do que eu posso transparecer possuir.

Eu vou me desculpar, mas vou fazer de novo, em questão de minutos. Me desculparei de novo no dia seguinte, menos tensa, menos chata, menos “tá que tá” como alguém diria e nós até riremos de tudo, mas vou voltar a repetir semana que vem, mês que vem, ou até daqui a anos.

Fazer o que se eu preciso de dias para exigir muito e me explicar pouco? Para colocar pra fora minha intolerância guardada a chaves e minha impaciência que eu tento esconder diariamente?!

Minha sombra raramente anuncia tempestade, mas eu preciso fechar o tempo pra relembrar o valor do claro.



Ingrid Tinôco

sábado, 27 de novembro de 2010

Ele

Junta as mãos e monologas com um amigo que há muito não falas. Conta-lhe sua vida, revela teus medos, chora angústias e mostra-lhe anseios. Seja claro, informal, certas amizades não se abalam com o tempo, e a intimidade perdura até no inimaginável. Não procure títulos, eles pouco representam a grandeza de alguém. Diz tudo, das idéias mirabolantes aos planos mais banais. Pede. Mas pede com a força de quem luta para tê-lo. Pede com a coragem de quem sabe ir até o final da estrada. Pede com suor, com lágrimas, com aquela fé que por vezes insistisses em esconder por uma descrença boba. Dá a cara à tapa e entrega o que está fora do teu controle, do teu mundinho, das mãos pequenas e por vezes frágeis. Mostra tua fraqueza, esquece essa vergonha tola, o que é revelado aqui, fica aqui, e não há testemunhas para tuas frases, teus gestos e ações. Sede tu, antes de qualquer coisa. Divide as esperanças com alguém que acredita plenamente nelas, e junto a ele, acredita em ti, porque isso basta.


Ingrid Tinôco

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

mudança

Passo mais horas pensando sobre o que escrever do que botando no papel aquilo que realmente me interessa no momento. Sim, as idéias fluem na velocidade do pensamento que bateria a da luz, se esta não fosse a mais rápida, mas é preciso filtrar e eu acabo escrevendo o bonito ou o feio do coração ao invés de apenas expulsar de mim o que realmente incomoda ou merece exposição. Minha ferramenta vem perdendo a funcionalidade, porque eu preciso das letras arredondadas, desenhadas num papel (ou numa tela de computador em arial 12) para retirar da alma o que me aflinge o suficiente para fazer calar, mas não tenho feito. Tenho calculado, milimetrado, revisado textos e esquecido os verbos que outrora tanto confortaram. Preciso voltar a escrever sobre mim, pra enxergar por outra ótica “o que danado há de errado com a que vos fala”, como num espelho em que se vê defeitos e pode-se corrigi-los com análise posterior, quero falar mal da saúde pública que é minha realidade iminente, quero cantar minhas músicas prediletas para aqueles que conseguem ouvir sons através das palavras, quero denegrir imagens sem dizer os santos, falando, pra quem quiser ler, o quanto certos comportamentos me indignam.

Quero ser menos séria, menos cética, menos textos politicamente corretos ou cercados de sentimentalismos bonitos e verdadeiros, mas que não vem a todo momento.

Quero expulsar.

Por isso vou tentar repaginar o blog e tentar fazer dele, novamente, o que era pra ter sido sempre, o MEU espaço. Onde eu escrevo sobre o que quiser e na hora que quiser, porque isso não é publicidade, é recordação e conforto, por isso, não precisa de métrica.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

no detalhe

Sem mecanicismos, e quero a espontaneidade de um abraço bom, dos apertados, que agarram a alma e prometem aos céus jamais soltar-me. E os nossos beijos de tirar o fôlego, as risadas de um fim de tarde qualquer olhando o mar e o sol que se põe com um dourado brilhante. Dê-me colo e cafuné até que eu feche os olhos vendo um filme bobo que você insiste em dizer ser bom/ Me contrarie, desafie, me faça xingá-lo e dizer o quanto eu viveria bem sem você, só pra eu ter a certeza do quanto isso não é verdade.

Quero as cócegas e as piadas sem nexo que me arrancar risadas pelo nada. Conte suas aventuras histórias, suas defensivas políticas, seus achados revolucionários que "só você sabe" e e faço questão de confirmar com o interesse de quem nunca ouviu falar. Peça-me um "eu te amo" falado só pra me ouvir discursar sobre a fluidez das ações. Reclame da minha TPM, dos meus hormônios, da minha desatenção, da minha moda. Diga pra eu não usar termos técnicos. Deixe-me falar da sua chatice, velhice precoce. Invente apelidos malucos, sem nada de melosidades e ainda se denomine o último dos românticos. Continue a desenhar cartas ilustrativas de que eu tanto gosto e a esquecer as datas que eu tanto prezo. Mudemos devagar pelo nós. Pegue-me no colo dizendo que ali é o meu lugar, e só ali estarei segura. Veja nossas flores e seus espinhos...pisemos leve, amor, bem leve.

Com carinho,

Ingrid Tinôco

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Perceba

Tinha uma maneira estranha de demonstrar necessidade. Se armava até que os escudos reluzissem de longe, e a lâmina afiada da espada empunhada arranhasse o “inimigo” com palavras ironicamente colocadas. Não pediria arrego, não questionaria precisões. Queria quem soubesse a maneira certa de retirar-lhe as lanças, de impedir os golpes. No fundo, desejava render-se. Acharia quem não precisasse de explicações para saber que, ao final das lutas induzidas, despia-se de couraças para mostrar-se frágil, dependente de um pouco que parecia fácil mas o qual, não raro, custava a aparecer-lhe.


Ingrid Tinôco

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Não lhe escorra

Nossas maiores glórias, quando nas palmas das mãos, parecem finos grãos de areia que o mar não molhou, deixando-os frágeis, leves, soltos, na iminência de escorrer por entre os dedos ao menor vento. Não há balanço de ondas, calmaria da brisa ou oferta de areia a sua volta que acalme a perda iminente.

Por você, passarão os que lhe oferecerão mãos a mais para comportar os grãos, carros para transportá-los em segurança ou palavras para que não percas a paciência e o equilibro. Mas haverá os que lhe trarão o vento indesejado com leves sopros imperceptíveis, os que insinuarão sorrisos ao incentivar tropeços e os que desviarão o olhar “insignificando”(com a permissão do neologismo) sua tarefa.

Cabe a você encontrar a água, o óleo, a liga que manterá unida sua própria areia, transformando-a do pó ao sólido. Machado de Assis dizia que o que era de ser seu, às mãos lhe havia de ir. Está aí, em suas mãos, não se permita tropeços, não os permita balanços.


Ingrid Tinôco

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Pisa não, bem. Pega do chão e cuida. Ela também ralou, também cansou e até caiu. É que nossa cruz pesa mais, né? Dá a ela um pedaço que ela não te nega ajuda, ainda sente o peso pra não duvidar do teu fardo. Faz isso também, vai, sente o do outro e segue com ele. Levanta do chão e sorri, segura na mão e ouve.