sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Perceba

Tinha uma maneira estranha de demonstrar necessidade. Se armava até que os escudos reluzissem de longe, e a lâmina afiada da espada empunhada arranhasse o “inimigo” com palavras ironicamente colocadas. Não pediria arrego, não questionaria precisões. Queria quem soubesse a maneira certa de retirar-lhe as lanças, de impedir os golpes. No fundo, desejava render-se. Acharia quem não precisasse de explicações para saber que, ao final das lutas induzidas, despia-se de couraças para mostrar-se frágil, dependente de um pouco que parecia fácil mas o qual, não raro, custava a aparecer-lhe.


Ingrid Tinôco

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Não lhe escorra

Nossas maiores glórias, quando nas palmas das mãos, parecem finos grãos de areia que o mar não molhou, deixando-os frágeis, leves, soltos, na iminência de escorrer por entre os dedos ao menor vento. Não há balanço de ondas, calmaria da brisa ou oferta de areia a sua volta que acalme a perda iminente.

Por você, passarão os que lhe oferecerão mãos a mais para comportar os grãos, carros para transportá-los em segurança ou palavras para que não percas a paciência e o equilibro. Mas haverá os que lhe trarão o vento indesejado com leves sopros imperceptíveis, os que insinuarão sorrisos ao incentivar tropeços e os que desviarão o olhar “insignificando”(com a permissão do neologismo) sua tarefa.

Cabe a você encontrar a água, o óleo, a liga que manterá unida sua própria areia, transformando-a do pó ao sólido. Machado de Assis dizia que o que era de ser seu, às mãos lhe havia de ir. Está aí, em suas mãos, não se permita tropeços, não os permita balanços.


Ingrid Tinôco

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Pisa não, bem. Pega do chão e cuida. Ela também ralou, também cansou e até caiu. É que nossa cruz pesa mais, né? Dá a ela um pedaço que ela não te nega ajuda, ainda sente o peso pra não duvidar do teu fardo. Faz isso também, vai, sente o do outro e segue com ele. Levanta do chão e sorri, segura na mão e ouve.

terça-feira, 27 de julho de 2010

QUE MÉDICOS SEREMOS?

Ela faz medicina(OOOHH, MEDICINA), na federal do Rio Grande do Norte (OOOH, a melhor federal do Nordeste), ela não sabe auscultar, fazer uma anamnese correta, analisar um paciente.

Oi? Falamos da mesma pessoa?

Sim, de mim, daqui a uns 6 meses se nada for feito. A gente pensa que a medicina é linda. Todos aqueles estudantes inteligentes e estudiosos vestidinhos de branco que passam correndo pelos lugares com um estetoscópio no pescoço. Um nariz de palhaço e uma placa de “futuro desempregado” ou “futuro incompetente” cabia melhor à minha turma e aos que passarão pelo 3º período da UFRN se nada for feito. “Mas não se preocupem, eles não deixarão nada acontecer com vocês, em 10 dias o problema se resolverá. Suas aulas começarão e todos os professores estarão lá, cardio e pneumo com suas vagas devidamente ocupadas, os rodízios lindos e bem preenchidos, com professores dispostos a ensiná-los.” Afinal, o departamento disse que uniria sua força à nossa, e resolveu sentar no balanço esperandoa o chapolin colorado virar albino (pra combinar com o contexto) e trazer toda sua astúcia pra resolver o problema.

As reuniões com chefes do que vocês quiserem imaginar foram animadoras, “contrataremos professores”, “abriremos editais para novos concursos”, “vocês terão semiologia”. Eu quase fico aliviada. O quase se apagou ontem, puuf... a menos que façam um concurso relâmpago, ou professores caiam de pára-quedas nas salas de aula e nos leitos do Hospital Universitário, vou ver tanta semiologia prática quanto o Porto (uma das bíblias que os estudantes de medicina tem de portar) pode me ensinar.

E a reitoria? Sempre muito ocupada, né? Evento nacional acontecendo, milhões de problemas com a Universidade, pra quê reunião com um bando de estudantes que se queixam mesmo estando na “melhor do Nordeste”? Olha de lado, deixa pra lá, empurra com a barriga, um dia se resolve, ou não.

Vocês já são formados né? Todos médicos, consultório, cargo público, estabilidade, aposentadoria, chefe disso, chefe daquilo. Pra que mexer os pauzinhos pros alunos? Virem-se! Se ao menos pagassem os 3000 reais mensais de uma Universidade particular, poderiam exigir alguma coisa. Afinal, poucos impostos você ou seu pai e sua mãe pagam por mês pra exigir qualquer coisa, não é?! O público tem passos lentos, burocracia, impedimentos. Deixa assim mesmo. Seis meses de atraso numa formação de graduação é pouco, principalmente pra você que já estudou feito um condenado pra passar no vestibular, vários anos inclusive, como eu.

Cruze os braços, leia a carta aberta que a turma de 2009.2 fez para tentar ser atendida, ouça falar do manifesto que vai ocorrer amanhã e diga a si mesmo: “Puxa vida! Que legal a iniciativa” e volte a dormir, afinal, você vai fazer questão de lembrar dos nomes dessa turma para NUNCA se consultar com nenhum deles. Ou melhor, seja calouro e pense “Tenho nada a ver com isso, daqui pro meu 3º período as coisas se resolvem”, ok, depois reclamam e perguntam o porque do “CALOURO BURRO” ao entrarem na Universidade. Vai saber, né?!

Tô revoltada sim, minha profissão é que está em jogo e quem achar ruim que feche a janela!

Good bye,

INGRID TINÔCO
3º PERÍODO DE MEDICINA NA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE(UFRN)

sexta-feira, 2 de julho de 2010

A você

Não falei à eternidade. Não jurei ao sempre nem brinquei com o futuro. Fui séria, lúcida, concisa e direta. Sem castelos, sem cavalos, sem arreios dourados ou longas tranças morenas. Sem coroas, sem encanto. Brincou, brincamos. Encanto, tanto. Roubou-me o verbo, violou sentidos. Despontou mistérios, riso escondido, contido. Desmentiu descrenças, apagou passados. Cri, cremos. Trouxe-me frases, fatos, beijo e abraço. Amor escrito com tempo, com jeito, lento e certo. Como o nós, hoje e sempre. Já o sempre. Sente?!


Ingrid Tinôco

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Quase um mês sem postar! Uhu! E não foi falta de tempo, foi falta de criatividade mesmo! Espero que nessas férias melhoree!

Beeeijo, gente =)

quinta-feira, 3 de junho de 2010

(mal)bondade

Devia ter uns 9 anos - pensei comigo. Olhou-se por sobre um salto 12 folgado nos pés, com um vestido que não era seu e um rosto carregado de pinturas que não lhe pertenciam.

Ela não devia ser feliz, o sorriso estampado no rosto era da doce inocência infantil, ilusória e passageira.

Mas aprenderia ainda a perder parte da bondade que lhe era característica (desejei com todas as minhas forças), a se impor e a pensar menos nos outros. Bem menos, eu diria caso me pedisse um conselho. E outra, era melhor que fosse logo. Temi por suas angústias futuras fruto dessa disponibilidade em demasia.

Parei, (re)olhei: já não tinha 9 anos.

Ingrid Tinôco

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Sem passos

Enquanto minhas mãos estiverem atadas e só restar o verbo, virar-me as costas ou corromper meus ouvidos só me desarma os sentidos. Não preciso de guias pela claridade do caminho, mas o que me era apoio não deveria antagonizar-se.

Já nem espero,

mas nunca disse que caminharia sozinha.



Ingrid Tinôco