terça-feira, 12 de agosto de 2014

Sobreviventes

O coração angustia dores nunca antes sentidas e a mente tenta acalmá-lo com a racionalidade de quem esqueceu do passado. Nos perdemos naquele mar e esquecemos, desta vez, os remos que outrora nos fizeram tão fortes. Hoje, nadamos em direções opostas, nos iludindo de que estamos seguindo a mesma maré. Já não sou sua sua âncora, já não és meu colete. Sei que não posso mais alcançá-lo, mas o medo de afogar-me longe de ti faz com que, ainda assim, a água me invada. Logo eu, que me orgulhava em não cansar de nadar (remar). 

E desta vez, exausta, não sei quem irá nos salvar.

Ingrid Tinôco

terça-feira, 22 de julho de 2014

Foi a pediatria...

Pelas vezes que me fui princesa para adentrar aos castelos alheios sem despertar o choro, ou me fiz menino, para que a intimidade não constrangesse tanto. Pelos exames sentada ao chão ou de joelhos sobre a mesa de brinquedos, já que os "iguais" se entendem melhor. Pelos momentos em que o estetoscópio pareceu machucar e as mãos, ora macias, simulavam arranhar a pele e despertar as lágrimas, desesperadoras para mim, tão verde na nova arte, e para eles, tão novos nesse mundo estranho. Pelas cócegas ao exame abdominal, que me tiraram o riso e por tantas tentativas frustradas de um exame mais calmo. Pelos pequenos médicos que descobri, incentivei e para os quais fui paciente, com muito gosto. Pelos menores que com medo segurei, pequenos diamantes, tão frágeis e fortes, a quem me confiaram o corpo. Pelos que descobriam as palavras aos poucos e pareciam querer usar todas de uma só vez. Pelos maiores que me confiaram segredos, que me ouviram com responsabilidade e me aceitaram como a uma amiga. Por ter redescoberto a leveza da vida, a magia do brincar e a sinceridade dos olhos. E por fim, por todos os abraços tímidos e sorrisos escancarados que me mostravam os dentes e as almas daqueles que, tão novos na escola da vida, me ensinaram tanto na arte do cuidar.

Ingrid Tinôco
Junho 2014

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Vai ter copa, sim?

Hoje ouvi Fernanda Takai cantando que "só a gente sabe emocionar cantando o hino a capela" junto a um trecho desse fato (quem foi atleta sabe como o coração bate forte enquanto isso acontece) e mais outros versos bonitos, e eu quis que aquilo tudo fosse verdade. Sério, eu queria me animar com essa copa, queria sim vestir verde amarelo, oferecer aquelas festas animadas pros gringos e mostrar o futebol-arte que, convenhamos, a gente sabe fazer. Eu quis estar ansiosa pra ver como isso vai movimentar o país e pros jogos que - me julguem o quanto quiser - vou assistir nos novos estádios superfaturados.

E pode ser que eu até faça tudo isso. Mas eu ainda não consegui! Como muitos, cansei tanto de ver desgraça no país do futebol que qualquer "esmolinha" de coisa boa é "pão e circo", é "jogo político", é "vitória comprada e eleição vencida", isso me cansa e dá é vontade de dormir durante os gritos de gol.

Eu acho que esporte é uma coisa absurdamente incrível, mas sabemos que isso não é só esporte, é evento e política, então, eu queria uma copa que trouxesse educação e saúde junto. Sabe quando a gente arruma a casa pra visita chegar? Pronto! Mas eu queira faxina completa, entendem? Receber os gringos falando inglês, mostrando minhas crianças alimentadas e educadas, seus pais empregados e todos agradecendo ao SUS pelo atendimento de qualidade, queria profissionais satisfeitos enquanto trabalhavam numa casa em que as coisas funcionavam como previsto (ao invés de receber bolsa-auxílio sem lavar um prato), queria levar as visitas a um passeio, sem que precisasse deixar às máquinas e os celulares em casa por medo de assaltos. Tá, tudo bem, é utopia demais, pois que pelo menos mostrássemos as tentativas de organização (e isso não significa tapumes escondendo obras inacabadas, leitos falsos em hospitais decadentes ou mobilização das forças armadas pra garantir parcialmente a segurança).

Mas isso, infelizmente, não vai acontecer. E, se por um lado eu queria que nos envergonhássemos na frente das visitas pra ver se melhoramos nas próximas, se eu queria que o administrador da casa levasse a mesma vaia que ele(a) recebeu durante um show esses dias (foi lindo e um abraço para os defensores da autoridade máxima); por outro, acho que roupa suja se lava em casa sem sequer os vizinhos ouvirem (quanto mais os visitantes). E se a festa custeada com o dinheiro do leite das crianças e do plano de saúde, piso furado e goteira pingando já está marcada, então, façamos o mínimo de esforço para que flua só para não desperdiçar os bilhões.

Mas se não quiser ajudar, que não atrapalhe. Os protestos de outrora de nada adiantaram, uma pena, é verdade, por isso não acredito que agora irão. Só seremos motivo de fofoca e chacota na rua e disso já estamos cheios, né?!

Pois que cada um devia querer ou não querer copa da maneira que lhe convém, cada um tem as próprias opiniões e princípios, amor pelo futebol ou asco a política nacional. Gritando gol ou viajando pra outro país, só acho que mesmo que nos pintemos de verde amarelo, essa pintura precisa perdurar um pouquinho. Sei que depois da festa, a ressaca vem com força, e se há prova no outro dia, é certeza de boletim vermelho (dessa vez, o cuidado é com um botão verde, escrito "confirma").

Eu sei que vou acabar me contagiando pelo sentimento da copa, alienação política ou hipocrisia, sei não, mas vou, é de mim esquecer algumas coisas momentaneamente. Mas não vou ter ressaca sabe?! Primeiro porque não vou me embriagar nem de cachaça, nem de alegria amnésica (que eu acabei de inventar), e vou fazer questão de lembrar quem foi que convidou a visita sem que tivesse limpado o pó dos móveis.

#vaitercopasim, mas também vai ter eleição!

Ingrid, que ainda não se decidiu se grita gol ou tira o atraso do sono acumulado.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Entre clichês

Entre verdades e clichês, fiquei com os fatos. Aquilo de "não cantar felicidade, porque inveja tem sono leve", sabe?! Acho mesmo é que ela vive sempre acordada. Felicidade é algazarra, esperança é efusiva. As minhas são! Pois que acordam ou chamam a bruxa má que mora ao lado.  Quando eu digo ao lado, é colado mesmo, dando bom dia e sorrindo animada. Sempre acreditei em suas máscaras, não vou mentir, me parecem momentaneamente bonitas, de quem vai me oferecer o braço quando eu quiser. Pois que os empurrões vem, inevitavelmente, em seguida. E eu sigo juntando os cacos das quedas imprevisíveis e sempre mal calculadas. Tolinha. Vamos voltar à primeira frase, pra jamais esquecer de mais um "aspeado" de vida: "se a palavra é de prata, o silêncio é de ouro"... e, de agora em diante, que aticem os ouvidos por entre as paredes.

Ingrid Tinôco

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Lá vem o ano novo (de novo)

Aí você pisca o olho e janeiro virou dezembro, e amanhã? Já é janeiro de novo. Lá vem o Natal, o nascimento de Jesus, o papai Noel e seus presentes , o verão, as férias... e os pensamentos. Estes vem aos montes. Do que se fez, do que não fez, do que deixou de fazer, mas deveria ter feito. E a gente faz mentalmente uma nova lista de resoluções para o ano que, como eu disse, começa amanhã, mesmo que o outro tenha iniciado ontem e não tenha dado tempo de você riscar nem o número 1 da sua lista antiga. Aí você mentaliza algumas prioridades-clichês: a paz do branco que vai estar na sua roupa, o amor que todo mundo precisa,  saúde já que "o resto a gente corre atrás", sorte e dinheiro porque ganhar na mega-sena da virada não seria nada mal. Então você passa para as mudanças que vai fazer em si mesma: ser mais calma, ter mais paciência, ser mais solidária, passar mais tempo com quem você ama, abraçar mais, gastar menos, estudar mais, trabalhar em dobro, adiar menos, usar menos a internet e voltar a ler mais, mudar os cabelos, ter uma barriga chapada, comer menos doce e mais salada, passar no concurso X, viajar ao lugar Y e mais uns 365 itens que, hoje, você tem certeza de que há dias suficientes para que sejam cumpridos a partir de 01/01.
 
Pra isso tudo se resolver, a gente pula ondas à meia noite, guarda os caroços de sei lá o quê na carteira, joga flores à Iemanjá, reza pra todos os santos, ora a Deus e promete a si mesmo que 2014 vai ser diferente e melhor, claro.
 
É sempre assim, e eu acho bonito isso tudo, sabe? Em resumo, esperança é, para mim, a palavra-sinônimo do ano novo. Porque não importa se você faz todas as coisas que eu falei acima ou nenhuma delas, no fim das contas, uma virada de dia que marca apenas a mudança no calendário parece significar a renovação dos ânimos e dos impulsos que nos movem. E quer sentimento melhor que esse para aqueles que planejam novos feitos?
 
Pois que o nosso ano novo seja assim, cheio de esperanças na nossa nova lista de resoluções (que pode nem se cumprir, mas é importante que exista). Que você consiga riscar o máximo dos seus objetivos contidos nela. E se não conseguir? Paciência!! Se ontem era o ano passado e amanhã já é o ano que vem, o "ano depois do que vem" já vem logo em seguida e não tarda para que as esperanças se renovem outra vez.
 
E se você não entendeu nada dessa minha matemática problemática (trauma de infância), procure "apenas" lembrar do sentimento dessa virada de ano pelos próximos 365 dias.  Tente manter a esperança em si e nos outros o máximo que puder, renovando-a diariamente, se possível for. Quem sabe, assim, você (e eu também, ok?!) termine o ano que vai começar, se não feliz, REALIZADO!
 
E que venha 2014!!!
 
Ingrid Tinôco

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Aos (meus) mestres

Desde quando meu vocabulário era escasso e minhas mãos incoerentes, quando o lápis ainda não desenhava nem a forma das vogais, vocês estiveram ali, prontos e aptos a me lapidarem. Quando chegaram as somas mirabolantes, as equações mais difíceis, a história tão antiga e a terra a ser descoberta pelos livros, vocês estiveram ali, dispostos a nos passarem o possível e o impossível de conhecimento, mesmo que a petulância adolescente insistisse em desestimular até os mais pacientes. Quando chegaram as provas de vestibular, o cursinho, os ânimos à flor da pele e a vida adulta batendo a minha porta, foram vocês quem estiveram ali, fazendo da dificuldade o estímulo, das quedas o aprendizado e do mestre, o amigo disposto a oferecer colo às lágrimas e palavras às desilusões. E quando me chegou o sonho, foram vocês a mostrarem o caminho, a anatomia, a fisiologia e como é bonita essa máquina própria que se chama ser humano. A primeira ausculta veio guiada pelas vossas mãos, enquanto as minhas, trêmulas, tateavam no escuro o desconhecido, a clínica se abriu em flores, versos e angústias; mas foram vocês a mostrarem o quão bela é essa ciência pela qual temos que nos apaixonar diariamente para que as dificuldades da vida não nos tire as esperanças. E hoje, é a vocês, professores de todas as fases e tempos, que eu dedico meu obrigada mais sincero e minha gratidão eterna.

Ingrid Tinôco

domingo, 1 de setembro de 2013

Dia lindo sem palavras

Acordara disposta, as gotas finas de chuva que salpicavam a janela pintavam a tela perfeita para bons textos. De pijama e chinelo arrumou o laptop entre as pernas e prendeu os cabelos para dar o ar de intelectualidade  caderno em mãos junto à caneta preferida. Era um dia lindo para belos textos, quem lhe diria o contrário? Olhou aquela folha branquinha de linhas perfeitas e já vislumbrou a caneta deslizar palavras certinhas, contando casos de amor, de revolta ou de sofrimento, como todo bom texto que se preza tem que ter. Olhou, olhou, olhou... Mas não veio um sequer caso de amor, bom ou mal; as revoltas não tomaram formas cabíveis e o sofrimento, nem se fala, fazia tempo que não tinha um daqueles grandes e "bons", sabe? Que tiram fôlego, lágrimas e todo o juízo em forma de letras. Bateu desespero, angústia, tristeza, bateu até fome, mas escrita que é bom, nada! Não vinha. Não tinha ideia que chegasse, música que inspirasse ou sentimento que brotasse. Se começar era impossível, terminar era indefinível. Coração e cérebro desconectaram, era a única explicação. "E agora, José?", ela gostava tanto daquela mistura de razão e emoção batidas com gosto agridoce. Desistiu. Voltou a dormir no travesseiro que tantas vezes lhe arrancara choros e prosas, foi acariciar o protagonista das confissões de outrora e pedir-lhe umas novas... n-o-v-a-s, entendeu? Adormeceu sem sonhos.